Uma fotografia que não podia ser publicada

21 de Abril de 1961, partida do Niassa no Cais da Fundição, fot: Diário da Manhã

1961 foi um ano difícil para Salazar e para o regime. Logo em Janeiro Henrique Galvão toma o Santa Maria, em Fevereiro há a revolta em Luanda e no mês seguinte, a 15 começa a guerra colonial após os ataques da UPA no norte de Angola e que durará 13 anos. Em Abril, a 13, falha o golpe liderado por Botelho Moniz na sequência do qual Salazar acumulará a presidência do conselho com a pasta da Defesa. A esse respeito profere o famoso discurso, ainda nesse mesmo dia “… se for precisa uma explicação para o facto de assumir a pasta da defesa nacional, mesmo antes da remodelação do governo que se verificará a seguir, a explicação pode concretizar-se numa palavra e essa é – Angola. Andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão …”. O resto do ano é passado entre o envio sucessivo de contingentes militares para África e a pressão internacional para Portugal acertar o passo com a história. Em Dezembro cai a Índia com um Salazar a pedir aos homens que lá restavam o “sacrifício total” na linha da intransigência face à comunidade internacional que adoptara para África: “Não prevejo possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”. Quando em Janeiro discursa na Assembleia Nacional sobre a queda, falta-lhe a voz, está afónico “com as emoções das últimas semanas” diz, e pede ao presidente da Assembleia que leia o discurso por ele. Tal como a voz, o império colonial tinha chegado ao fim. Uns dias antes, na passagem do ano para 1962 tinha fracassado o assalto ao quartel de Beja naquilo que será a última tentativa de derrube do regime pela força até 1974.

Este é o pano de fundo para ler esta fotografia. Foi feita a 21 de Abril de 1961, faz hoje precisamente 50 anos, no cais da Fundição, em Santa Apolónia, por um fotógrafo* do Diário da Manhã e mostra o navio Niassa (que tinha regressado da índia com um contingente de “tropas metropolitanas” a 18), fretado pelo exército à Companhia Nacional de Navegação, a afastar-se no Tejo em direcção ao mar para rumar a Luanda. A bordo segue o primeiro contingente expedicionário português, os primeiros dos cerca de 800 000 homens que foram enviados para a guerra ao longo dos anos (na realidade, uns dias antes, já tinha seguido um grupo de pára-quedistas de avião).

Como seria de esperar, o evento encheu as páginas da imprensa, tal como vinha a acontecer desde Fevereiro e com muito mais intensidade desde os acontecimentos de Março. A grande maioria viu no acontecimento um momento de grande exaltação dos valores do nacionalismo, da honra e do sentido patriótico na defesa do território nacional que se estendia “do Minho a Timor” como titulava uma secção do mesmo Diário da Manhã, propriedade da União Nacional. As fotografias que ilustravam a notícia reforçavam esta ideia: as tropas partiam felizes e conscientes do seu papel por entre despedidas “alegres e entusiásticas”.

O embarque começou por volta das 8 da manhã e o navio partiu cerca das 11:30. O dia não estava especialmente luminoso; “O vento era fraco, predominante do oeste e o céu estava muito nublado por acção de uma massa de ar marítimo transportada na circulação de uma depressão centrada a Oeste da Irlanda”. Esta fotografia nunca poderia ser publicada e olhando o conjunto das fotografias escolhidas para publicação percebe-se porquê. Não há heroísmo nenhum, apenas a condição humana perante o afastamento e a separação. O céu ocupa o terço superior da fotografia, o rio, o cais e as pessoas os outros dois. É a primeira das últimas viagens para as colónias. Do barco já não chega nenhum gesto nem nenhum olhar, ao contrário do lado dos que ficam, em que um braço se suspende num aceno que não parece conseguir sair (ou uma tentativa cega de tapar o sol e ver mais longe), como se fosse uma viagem sem regresso, uma separação definitiva. Em muitos casos, assim foi.

*fotógrafo em processo de identificação

francisco feio, abril 2011

Diário da Manhã de 14 de Abril de 1961

Diário da Manhã de 14 de Abril de 1961

Diário da Manhã_propriedade da União Nacional

Diário da Manhã, "do Minho a Timor"

Diário da Manhã de 22 de Abril de 1961

Diário da Manhã de 22 de Abril de 1961

O Século, edição de 22 de Abril de 1961

O Século Ilustrado, edição de 6 de Maio de 1961

Diário Popular, edição de 21 de Abril de 1961

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5 Responses to “Uma fotografia que não podia ser publicada”


  1. 1 Marilisa Crespo 21 Abril, 2011 às 13:35

    Uma efeméride que se tem mantido na ‘clandestinidade’; mas agora vai sair por aí!
    Muito obrigada

  2. 2 GCF 21 Abril, 2011 às 22:27

    Malhas que o Império tece. Sem lamentos, hesitações. Serviço e a ética de serviço, o superior, intransigente prazer do dever cumprido.
    Parabéns Mano.

  3. 3 FS 23 Abril, 2011 às 1:05

    Francisco, é essencial o assumir destas memórias e trazê-las para a luz do dia de hoje. Obrigada por esta tua investigação em curso.

  4. 5 Ansgar Schaefer 23 Julho, 2013 às 9:41

    Fiquei muito impressionado com este artigo. Já chegou a identificar o fotógrafo? Parabéns e cumprimentos, Ansgar Schaefer


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